Compartilhar fotos e outras memórias dos filhos na internet é um assunto que gera muita polêmica entre pais e mães. Muitos acreditam que é um direito dos pais, enquanto outros defendem que essa é uma violação da privacidade da criança. Mas embora essa discussão gere um debate, a quebra da privacidade ou a falta de atenção à vontade da criança não é o maior problema na hora de compartilhar algo nas redes sociais. É o que diz Priya C. Kumar, doutoranda em estudos da informação pela Universidade de Maryland, nos EUA, em texto publicado no portal The Conversation.

Ela argumenta que registrar o crescimento dos filhos é algo que a humanidade faz há muito tempo, antes mesmo da existência das redes sociais. “Durante séculos, as pessoas registraram minúcias diárias em diários e álbuns de recortes. Produtos como livros infantis explicitamente convidam os pais a registrar informações sobre seus filhos”, lembra. Documentar as fases da vida e os papéis que as pessoas cumprem ao longo da vida seria útil para que as pessoas pudessem de fato cumprir esses papéis – de filhos, esposos, pais, amigos, etc.

Portanto, pedir a pais que parem de registrar o crescimento dos filhos nas redes sociais é uma tarefa difícil, uma vez que isso seria fundamental para a vida social das pessoas e está acontecendo há muito tempo.

O problema é que fazer isso especificamente nas redes sociais traz problemas diferentes e únicos. “Fotos de álbuns de família não transmitem dados digitais e se tornam visíveis apenas quando você decide mostrá-los a alguém, essas fotos do Instagram ficam em servidores de propriedade do Facebook e são visíveis para qualquer pessoa que rola pelo seu perfil”.

Capitalismo de vigilância

Kumar defende que os debates sobre privacidade e compartilhamento geralmente se concentram nos seguidores ou amigos dos pais que vêem o conteúdo, e tendem a ignorar o que as corporações fazem com esses dados.


Estamos constantemente sendo monitorados!

“Ao contrário de registros em diários, álbuns de fotos e vídeos caseiros, postagens em blogs, fotos do Instagram e vídeos do YouTube residem em plataformas de propriedade de corporações e podem ser visualizadas por muito mais pessoas do que a maioria dos pais percebe ou espera. (…) Essas plataformas operam cada vez mais de acordo com uma lógica econômica que o estudioso de negócios Shoshana Zuboff chama de ‘capitalismo de vigilância’”.

A pesquisadora lembra que estas plataformas produzem bens e serviços projetados para extrair enormes quantidades de dados de indivíduos, coletar esses dados para definir padrões e usá-los para influenciar o comportamento das pessoas.

Ela ressalta que esta é uma escolha consciente destas empresas e cita um exemplo contrário. “Não precisa ser assim. Em seu livro sobre contabilidade de mídia, (Lee) Humphreys menciona que, em seus primórdios, a Kodak desenvolvia exclusivamente o filme de seus clientes. ‘Enquanto a Kodak processava milhões de fotos de clientes’, escreve Humphreys, ‘eles não compartilhavam essas informações com os anunciantes em troca de acesso a seus clientes. Em outras palavras, a Kodak não mercantilizava seus usuários’. As plataformas de mídia social fazem exatamente isso. Compartilhar diz a eles como é seu filho, quando ele nasceu, o que ele gosta de fazer, quando atinge seus marcos de desenvolvimento e muito mais”, alerta.

“Essas plataformas buscam um modelo de negócios baseado em conhecer os usuários – talvez mais profundamente do que eles mesmos se conhecem – e usar esse conhecimento para seus próprios fins. Contra esse pano de fundo, a preocupação é menos sobre os pais falarem sobre seus filhos online e mais sobre o fato dos lugares onde os pais passam tempo online sejam de propriedade de empresas que querem acesso a todos os cantos de nossas vidas. Na minha opinião, esse é o problema de privacidade que precisa ser corrigido”, aponta. [The Conversation]

Fontes: HypeScience | PDABR